Já não descia ao Submundo há muito tempo. Há cinco longos meses, para ser preciso. As razões da minha longa ausência não são relevantes para este texto. Julgo que, de qualquer modo, não iriam interessar a ninguém. Mas estou de volta para vos contar uma pequena história sobre as minhas noites de 2008. Diz-se que os seres humanos nem sempre conseguem recordar os seus sonhos; um tipo acorda às sete da manhã, toma banho, veste-se, come qualquer coisa e vai para o trabalho sem dar conta de que durante a noite interpretou um milionário, um assassino em série ou um travesti perseguido por um grupo de extrema-direita. Tudo isto e muito mais em apenas escassos segundos. Esse curto período de tempo numa qualquer noite de descanso pode fazer toda a diferença; refiro-me a maus agoiros, déja-vu, e estranhas visões reveladoras. Isto significa que os sonhos podem funcionar como portas para mundos inexplorados ou, num sentido mais instrumental, orientações para a nossa conduta diária.
- A noite passada tive um pesadelo - disse a rapariga de olhos castanhos.
- Tiveste? E de que se tratava? - inquiriu o seu pai.
- Foi muito esquisito. Acho que hoje vou não vou de comboio para a faculdade.
O mau agoiro provocado pelo sonho condiciona a acção da rapariga de olhos castanhos, como se uma voz na sua consciência a aconselhasse a não fazer certas coisas. O pesadelo que teve na noite anterior envolveu um comboio e possivelmente um acidente, ou algo pior, como uma morte. Mas as estranhas sensações em relação aos sonhos não se esgotam assim.
- Lembras-te de termos falado sobre o livro que não consigo terminar? - perguntou Acácio.
- Sim, o tal que deixaste a meio há mais de duas semanas...
- Exacto. Ontem finalmente visualizei um final para a história!
- A sério? Como conseguiste? - perguntou o editor.
- Tudo se passou num sonho. Um sonho inesquecível...
Aqui abriu-se uma porta para um mundo apenas acessível pela imaginação ou pelos sonhos. Um mundo que permanecia escondido. O escritor que enfrentava um bloqueio teve a sua epifania enquanto se babava para a almofada do seu velho sofá.
- Já não tenho um sonho desde o final de 2007. Não sei se é normal.
- Podes sonhar e não te lembrares disso. Acontece a muita gente.
- Sim, mas nunca me aconteceu estar tanto tempo sem sonhar, e não me parece que alguma vez tenha tido um sonho de que não me lembrasse.
Ou não me recordo, ou as portas permanecem fechadas.

