sexta-feira, 30 de Dezembro de 2005

Onde fui buscar isto??

Eu sou daquelas pessoas que compactua com a ideia defendida por certos escritores, de que a inspiração não existe. O talento não é inato, é trabalhado ao longo de um processo de aprendizagem que consiste em muitas leituras e em praticar a escrita. A primeira fase é inconsequente se não for seguida pela segunda, e esta decerto será insípida se não for precedida pela primeira. Escrever bem significa dominar uma técnica, para cujo aperfeiçoamento é fundamental uma imaginação dotada de plasticidade, qualquer tipo de material em que se possa escrever, e uma caneta ou um lápis. Numa suposta "sociedade da informação", em que as novas tecnologias desbravaram terrenos nunca antes explorados, o computador pessoal é também uma ferramenta preponderante na produção de um manuscrito. Mas tudo começa nas ideias e no bloco de notas, ou no caderno, seja sentado no autocarro, no metropolitano, na fila do cinema, no supermercado, na livraria, no teatro, ao ir passear o cão, ao ir deitar fora o lixo, ao observar as pessoas na rua, etc. Neste momento não estou onde gostaria de estar, no campo, junto da minha avó e do meu cão, a gozar a paz do isolamento entre bosques verdejantes e serras rústicas, mas parte de mim permanece lá. É esse fragmento de mim que está a escrever com o sossego necessário, com o único objectivo de contar as histórias que necessito de libertar. Tenho muito para dizer mas nem todos estão dispostos a ouvir, por isso escrevo. Ainda não tem um título, mas está progressivamente a ganhar forma e um conteúdo que me apraz. Por vezes, entre cliques no delete e no backspace, e ao acabar uma frase ou um parágrafo penso: Onde fui buscar isto?? Não sou escritor, mas espero em breve contar-vos histórias.

Zodiac

Robert Downey Jr. e Jake Gyllenhaal são respectivamente Paul Avery e Robert Graysmith no no thriller Zodiac, de David Fincher. É já em 2006.

quinta-feira, 29 de Dezembro de 2005

E tremeu...

Olho para o relógio e vejo os seguintes números: 5:41. Isto é de extrema importância. Inédito. E eu não senti. Às 5:03 a terra tremeu... e eu estava a escovar os dentes. Não senti. Houve um sismo, disse-me um amigo que o sentiu.

terça-feira, 27 de Dezembro de 2005

Modo Automático

Dispo-me.
Tiro os boxers e mando-os pela janela, tresandam à tua cona,
Entro na banheira. A água ferve.

Fecho os olhos, só vejo escuridão
Aposso-me da lâmina.
Está tremeluzente à luz das velas,

Não. Sim. Não... - comanda a tua voz.
Obedeço.
Saio da banheira. O meu corpo treme.

Engulo um ácido.
Tira-me uma fotografia - peço-te.
Não estás lá.

Modo automático.
Flash...
Já está, agora quero beber.

Solto gargalhadas,
Vejo formas, sombras,
E canto. Canto e bebo.

(Fant)asma

Eu nunca quis estar aqui... mas adaptei-me, tal como os animais que são retirados do seu habitat natural e atirados para um meio envolvente completamente novo. O que sou eu e o que são estes animais? Somos forasteiros, estranhos, criaturas renegadas em busca dum rumo irreversivelmente perdido. Este meu "eu" é um animal que se move na penumbra... cujos passos ecoam nos becos e assustam as pessoas. A neblina esconde o meu verdadeiro rosto, dissimula a minha condição, é criadora dum mito que é contado pelos adultos à crianças. Quando for de noite e se formar nevoeiro, foge! - dizem-lhes, sempre de volta da lareira, confortados pelo calor e pelo ruído das labaredas. Ele move-se no breu. O que eles desconhecem é que eu sou um humano guiado pela vingança, não sou mais monstruoso que eles. Sim, esqueci-me do sabor do beijo, da ternura do toque, da sensualidade do olhar, jamais voltarei... sou um fantasma... mas outrora amei e fui amado. Quando for de noite e se formar nevoeiro, foge.

sábado, 24 de Dezembro de 2005

Hoje soube notícias dos meus. Estão longe mas a recordação da sua presença trá-los até mim como em anos anteriores. Este é o primeiro Natal sem o meu tio, que muita saudade deixou entre todos, e é também o dia em que anseio por voltar à terra dos meus antepassados, onde tudo começou. Feliz Natal.

quarta-feira, 21 de Dezembro de 2005


David Fonseca, Who Are U?


Ever since I saw you
I want to hold you
Like you were the one

It sees right through me
A bullet it comes and takes me
And I love you I love you
I want you but I fear you

Who are u ?
who are u?

Ever since I saw you
I want to hold you
Like you were the one

You feet rest on my shoes
I sing this song for you
Just to see you smile

And I love you I love you
I love you but I fear you

Who are u?
who are u?

For how long
How strong do I still have to be?
How come you mean so much to me?

For how long
How strong do I still have to be?
How come you mean so much to me?

And I love you I love you
I want you but I fear you

Who are u?
who are you?

For how long
How strong do I still have to be?
How come you mean so much to me?

For how long
How strong do I still have to be?

Seguro a rosa... e aperto-a

Porque é que olhas e recusas-te a ver? Porque é que questionas e não procuras responder? Não queres sofrer e amas alguém que trai? Tu sabe-lo... mas alimentas o fingimento... estás ferida no teu orgulho. Rompe com esse vício a que chamas amor, vem ter comigo. Toca-me, deixa-te envolver nos meus braços, sente a minha pulsação, escuta o que tenho para te dizer. Deixa-me amar-te indiscutivelmente... senão, ao acordares numa destas manhãs serenas, receberás no correio uma carta com a minha caligrafia, e chorarás, pois verás que as minhas intenções eram sérias para contigo e... para com a morte.

terça-feira, 20 de Dezembro de 2005

Agora é http://osubmundo.blogspot.com .

A minha utopia

Imagens apenas imaginárias, visões romanescas de pessoas, desejos profundos que nunca se concretizam, construções mentais de lugares idílicos, ilusões. Julguei ter escapado a tudo isto...

segunda-feira, 12 de Dezembro de 2005

David Stoupakis

The Two Judgements, 2004
Pigs, 2005
The Call, 2005
Speak, 2005



Rendi-me ao trabalho de Stoupakis.

quinta-feira, 8 de Dezembro de 2005

Cler, o Nefando

Chokul e Garlan estavam perdidos no bosque e clamavam agora por socorro, no entanto ninguém acudia. O som de seus gritos era oprimido pelas imponentes árvores que se erguiam perante eles, e os animais das redondezas escapuliam-se à sua passagem, como que pressentindo o perigo. O silêncio apenas era cortado pelo ruído do vento, que parecia assobiar aos seus ouvidos. Garlan chorava descontroladamente, não só devido à súbita desorientação, mas também porque havia feito um corte na perna ao esgueirar-se pelas silvas. Chokul aparentava estar mais calmo e tentava serenar seu companheiro. Meteu a mão à algibeira e encontrou o último biscoito que lhe restava do lanche. Ofereceu-o a Garlan. Os miúdos caminhavam abraçados e atentos ao que os rodeava, pois aquela floresta tornava-se lúgubre ao crepúsculo e figurava em muitas lendas antigas. Uma dessas histórias, contada pelos anciões da aldeia durante as noites em que se fazia a grande fogueira, dizia que o bosque era milenar e nele residiam muitas criaturas disformes. Mas o pior não eram as criaturas, mas sim um homem que se dizia ser possuidor de um grande poder maquiavélico, outrora um sábio das montanhas que, após ter sido executado pelos aldeões por suspeita de comunicar com demónios, foi ressuscitado por Varlock Subithus e lhe jurou fidelidade, migrando para a escuridão da floresta e nela cavando durante anos, possuído pela loucura, um buraco tão grande que construiu uma enorme caverna para aperfeiçoar a magia negra. Ele era Cler, o Nefando, descendente de Zenith, o famoso mágico que utilizou seus conhecimentos para derrotar centenas de soldados do exército negro de Kolunum Subithus na grande batalha da Planície Lunar, ocorrida numa época remota. Jamais alguém o havia visto desde a sua morte e suposta ressureição, mas a crença na sua existência era suficiente para afastar qualquer um das proximidades do bosque. Era esse pensamento que fazia tremer as pernas de Chokul e Garlan à medida que avançavam por um trilho lodoso e desesperavam por ajuda. Se ao menos Alandur estivesse por perto...

sexta-feira, 2 de Dezembro de 2005

Cocaína

A nossa amizade era uma farsa há vários anos, no entanto nenhum de nós queria admiti-lo. Como todos os nossos amigos gostavam de dizer quando estávamos perto deles, vocês são os melhores amigos! Os que não diziam isto sem qualquer pingo de ironia (como poderiam saber? nós éramos bons a mentir ao próximo, inclusivé um ao outro), afirmavam sentidamente: amizades como a vossa são raras nos tempos que correm. Todas estas palavras eram genuínas, afinal de contas eram ditas por pessoas bastante diferentes de nós, mas que sempre haviam estado dispostas a ajudar-nos. Tratava-se dos nossos amigos, tão diferentes de mim e dela... Contudo a realidade assemelhava-se a um espelho de duas faces que, por um lado, reflectia a encenação, e por outro, escondia a verdade. Ela acabara de sair duma relação efémera com um sujeito que dependia da música para viver, e tinha milhentas histórias para contar acerca do tempo que estivera junto dele, todas com um tom melodramático e completamente fraudulento. Eu limitava-me a fingir que era bom ouvinte. Nunca lhe havia dado a entender que os convites para ir ao teatro eram apenas um pretexto para estar com ela. Sugeria as peças ao acaso e revelavam-se enfadonhas. Os telefonemas que lhe fazia antes de me deitar duravam apenas cerca de trinta minutos, mas ouvir a sua voz hipnótica tranquilizava-me. Assim passaram anos sob a capa dum sentimento que mascarava outro. Numa tarde amena e letárgica, já o sol iniciara a sua fuga para as costas do horizonte, apossei-me da chave do meu carro e conduzi até sua casa. Chegado ao destino, mantive-me no carro durante largos minutos, pensativo, tentando convencer-me de que não me iria arrepender do que estava pronto para fazer. Pairava sobre mim um velho fantasma apelidado de ex-namorada... e o medo de deitar tudo a perder, até uma amizade falaciosa. Vi-a aproximar-se do prédio pelo espelho retrovisor. Mesmo à distância notei que os seus olhos tremeluziam diante dos últimos raios de sol do dia. Engoli em seco e abri a porta do carro. Ela parou junto ao passeio e devolveu-me o olhar. Parecia surpreendida por me ver. Sem demoras aproximei-me e disse-lhe que estava ali para desenterrar a verdade, ao que ela semicerrou as pálpebras e suspirou. No fundo sabia a razão da minha vinda. - Quero que olhes para mim e me ouças - disse-lhe. - Ao longo deste tempo todo limitei-me a olhar para a minha sombra e rever-me nela, mas hoje acabo com isso. Chega de secretismo e de perfídia. Vou dizer-te o que sinto por ti e quero uma resposta sincera da tua parte. Ambos escondemos algo um do outro, e pior, ambos o sabemos, por isso estou perante ti para pôr termo a este magnífico desempenho a que chamamos amizade. Não quero mais ser actor, e a ironia disto é que nunca gostei de teatro... Mas o que quero dizer é que logo no dia que se seguiu àquele em que acabei contigo arrependi-me. Desde então amo-te e esperei pelo momento em que teria coragem para te confidenciar. Quero-te, a minha vida sem ti é apenas o vazio... Aqui tens, este é o meu segredo - quando me calei apercebi-me que o meu coração palpitava de forma alucinante. Foi então que a sua face se transmutou. - Se me amas porque razão não me disseste antes? Queres saber o que penso sobre isso? Queres saber os meus segredos, é isso? - as lágrimas escorriam pelo seu rosto e a sua voz estava diferente devido ao nervosismo. Gritou: - Sou viciada em cocaína desde que acabaste comigo e tenho feito tratamento numa clínica, mas não está a resultar. Este é o meu segredo. Quanto a ti, já não te amo. Pelo contrário, odeio-te! - Dito isto empurrou-me e afastou-se com passos largos, enxugando as lágrimas com a manga do casaco. Nunca esquecerei aquele momento... foi a tarde em que assisti ao ocaso dos dois astros mais importantes da minha vida; a um de perto, ao outro à distância. A minha primeira reacção foi sentar-me no chão. Imaginei-me numa sala de espectáculos; acabara de testemunhar o desempenho mais elevado e terrível de sempre. A cortina fechou-se e não houve aplausos, apenas silêncio. Ela sempre fora excelente a ocultar a verdade, e naquele instante confirmou-o. Voltara a mentir-me, desta vez parcialmente.

quinta-feira, 1 de Dezembro de 2005

Magma

Hoje celebra-se os 365 anos da independência portuguesa face a seis décadas de domínio espanhol. É também o dia seguinte a um dia (que redundância...) corrosivo, boémio e alucinante. Ao almoço provei um mau vinho branco, durante a tarde apossei-me de várias cervejas, ao jantar bebi sangria na companhia de velhos amigos, ao som da cantiga dos Parabéns e rodeado de bolo de aniversário, e ao final da noite perdi-me numa torrente de lava do vulcão Jack Daniel's. Um copo, várias pedras de gelo e o magma suave e inebriante. Não sinto ressaca, apenas tenho a certeza de ser um rapaz libertino.