segunda-feira, 18 de Dezembro de 2006

A Conquista do Paraíso

Ao RS e ao MF
Quando passeio durante a noite desvio o olhar do passeio para observar as luzes das inúmeras janelas que compõem os prédios, que por sua vez compõem ruas construídas à imagem de desconhecidos que nelas residem. Distraio-me pela fluidez dos meus pensamentos e perco-me na contemplação da vida dos outros, na tentativa de viver outras vidas diferentes da minha. Já nem converso com a minha sombra como fazia antigamente, no tempo em que sentia o poder da escolha, em que a excitação de cada novo desafio era constante e quando a árvore em frente à janela do meu quarto ainda resplandecia com a luz do sol nas tardes reconfortantes de uma outra época. Hoje acordo a ter pesadelos, corro em direcção à casa de banho e lavo as mãos com lâminas, as mesmas mãos com que já acariciei a face e os seios da pessoa que amei. E a mágoa jorra, a impotência escorre, mas a sujidade permanece encrostada nas supostas linhas da vida que percorrem os meus dedos. Se são as linhas da vida, então a minha existência estará para sempre manchada pelo amor e condenada à treva pela solidão. Apesar de tudo, há algo à espreita longe. Voam em minha direcção versos de orgulho, honra, dignidade, e paz num céu que em breve será mais azul do que alguma vez foi.
Eu existo apenas na mente de João Esteves, mas poderia ser qualquer um de vós. O meu criador imaginou-me numa noite fria de final de ano.

sábado, 2 de Dezembro de 2006

Matrimónio

Não sei de quem é a voz da minha mente,
Mas é horripilante e o seu som é demente
Sussurra-me versos sobre um amor violento,
Sobre um corpo nu unguento

Eternamente aprisionada no meu sono de cansaço
Reclamo-te!
Momentaneamente adormecida sob o meu regaço
Amo-te!

São os dias mais negros da minha história,
De celebração de aniversários olvidados pela memória.
Outrora tempo de cânticos, velas acesas e carícias
Agora feito de gritos, sorrisos tremeluzentes e malícias

Sei porque falas comigo na escuridão
Minha consorte.
Queres ser minha esposa na imensidão
Branca morte.